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Cartagena das Índias, Colômbia: a entrada para o caribe colorido

Animada, colorida, quente, dançável, caminhável, apetecível, deliciosa, amável. Cartagena das Índias sabe ser isto tudo e sabe receber de sorriso rasgado. Queremos contar-te como é esta cidade caribenha da Colômbia e também como foi, porque uma história revuelta (como os ovos ao pequeno-almoço!) marcam os últimos séculos destas ruas e gentes.

Uma arepa para celebrar a chegada à Colômbia

Em muito espelhando aquilo que é a Colômbia, não podemos passar sem contar o nosso início neste país, à chegada a Cartagena das Índias. Entramos no táxi amarelo à saída do aeroporto de Cartagena das Índias. “Buenas noches, para Getsemani, quanto es?”. “16 mil”. Preço justo, bora, começamos bem!

Arranca o táxi e com ele a música. Sons latinos inundam o carro, atravessam-nos os ouvidos e entram diretos em nós. O Sr. Taxista, de poucas palavras mas bom cantador, trauteia ao volante e contagia-nos com a sua alegria.

Escassos minutos depois e já lá estamos. O quarto do hostel não corresponde às expectativas, nem às fotos (típico!), mas não faz mal… só queremos ir acalmar a barriga que dá horas das longas horas no ar para aqui chegar.

Ana a passar em frente a fachada amarela em Cartagena das Índias na Colômbia.

Olhamos o relógio e duvidamos se encontraremos algo para comer… Certamente ainda não conhecemos a Colômbia! Mas vamos… viramos ali a esquina e logo percebemos que nos enganámos redondamente. É sábado, dia de gente na rua, música, dança, cor, e claro bebida e comida não faltam por aqui. Em ruas estreitas ouvem-se as salsas e os reggaetons, comem-se perros calientes, bebem-se piña coladas, as pessoas divertem-se, os pares dançam (isto sim é dançar!) e a energia espalha-se. Não há como não!

Foi vida que sentimos ao pisar a Colômbia. Era vida de que precisávamos… e de uma arepa também! Vamos lá conhecer Cartagena das Índias.

A atribulada e irreverente história de Cartagena das Índias

Comecemos pela história de Kalamary. Assim era chamada Cartagena das Índias pelos Arawak Tainos, o grupo predominante de nativos indígenas desta zona do Caribe antes da invasão pelos índios Karibs originários do Mato Grosso, no Brasil. Sim, gerações sem conta habitaram a costa da Colômbia, sucessivamente ocupada por grupos indígenas desde uns 3500 anos antes de Cristo. Não vá pensarmos nós que viemos trazer mundo a estas terras. Aliás, Velho Mundo era o que nos chamavam a nós, ocidentais que por ali entrámos sem bater à porta.

Praça com vendedores ambulantes em frente à Torre do Relógio em Cartagena das Índias
Passagem para a Praça dos Coches em Cartagena das Índias

Um dia do ano de 1500, os habitantes de Kalamary amanheceram surpreendidos por uns estranhos artefactos no horizonte: eram os primeiros barcos que vinham do Velho Mundo mudar o rumo das suas vidas.

Vieram cá parar ao engano, coitados, pensavam que tinham chegado à Índia (grande desvio!) e assim ficou a referência “das Índias”. A baía que se forma ao largo da cidade pareceu a estes espanhóis a baía da cidade de Cartagena na região de Múrcia em Espanha. Confirmada a falta de orientação e a falta de criatividade, assim ficou nomeada a bela cidade caribenha de Cartagena das Índias.

Por aqui dentro entrou então a coroa espanhola que logo percebeu o potencial da localização que o porto de Cartagena tinha, fazendo com que, em poucas décadas, se tornasse o porto mais importante do Caribe para o comércio de metais preciosos e de escravos. Onze milhões de pessoas africanas foram deportadas para a América, contra a sua vontade, durante mais de três séculos com destino à escravatura. Fruto desta desumanidade, Cartagena das Índias é das cidades mais afroamericanas de todo o continente. A onda de africanos trouxe consigo tradições, cultura, gastronomia, música e genes, cuja herança perdura até aos dias de hoje.

Ao longo dos séculos seguintes, os tesouros de Cartagena das Índias foram cobiçados por outras coroas europeias (como a portuguesa e a inglesa) mas também pelos piratas e saqueadores das Caraíbas.

Ruas com pessoas e fachadas de edifícios em Cartagena das Índias
Passagem amarela com vendedor de fruta ao fundo

Ninguém dava descanso aos cartageneros! Para agravar a inquietude por estes vivida, em 1610 Espanha decide implementar o Tribunal da Inquisição de Cartagena das Índias. Resultado: ao longo de 211 anos perseguiu, penitenciou e condenou estes caribenhos, processando mais de 800 réus e realizando 56 autos de fé públicos.

É em 1811 que os Lanceiros de Getsemani, a milícia de artesãos que neste bairro se formou, se revelaram contra a coroa espanhola ocupando os baluartes da cidade e forçando a assinatura da independência de Cartagena das Índias. A década seguinte não foi, porém, de paz. Pelo contrário, foram anos de lutas entre cartageneros e espanhóis. Anos de investidas sucessivas do lado espanhol que via Cartagena das Índias como a porta de entrada no país.

Em 1815, o povo de Cartagena das Índias sofreu um cerco do qual se defendeu e resistiu firme durante 105 dias, episódio que trouxe à cidade a ainda usada alcunha de La Heroica.

Finalmente em 1821, Espanha entrega a cidade aos seus patriotas e Cartagena das Índias começa a curar as suas feridas. Nesse ano é também anulada a inquisição e em 1851 é abolida a escravatura na Colômbia.

Curiosidade…

Há mais de dois séculos que se celebram as Festas da Independência, todos os anos a 11 de novembro em Cartagena das Índias. Chamam-lhe o Carnaval de Cartagena, altura em que se realiza também o Concurso Nacional de Beleza.

Free e non-free walking tours de Cartagena das Índias

Regressemos agora ao ano 2022 e à nossa visita a Cartagena das Índias. Sempre que há Free Walking Tours disponíveis, lançamo-nos sem demoras ao chegar a uma cidade nova, para assim mais rapidamente conhecermos os cantos à casa. Desta vez não foi diferente. Porém, em Cartagena das Índias demorámos algum tempo a perceber a estranha lógica das “free” walking tours lá do sítio, a qual partilhamos agora contigo para te facilitar também a vida.

Praça de Cartagena das Índias com a fachada da Igreja de Santo Domingo

As Free Walking Tours são visitas guiadas gratuitas em que os donativos ao guia são bem-vindos. Existem em grande parte das grandes cidades e para te juntares a elas basta compareceres num determinado ponto de encontro, juntando-te assim a um grupo de pessoas como tu. Em Cartagena das Índias existem, de facto, estas Free Walking Tours a juntar àquelas que assim se intitulam, mas que cobram um determinado preço logo à partida… ou seja, de free têm apenas o nome.

Assim, se quiseres realmente fazer uma Free Walking Tour em Cartagena das Índias, procura pela Nexperience no GuruWalk. Ou então aparece ao pé dos semáforos na Praça da Independência, em frente à Torre do Relógio, e junta-te ao grupo que por lá se for formando (salvo alterações de localização que possam ocorrer e que desconheçamos). Apesar de ser realmente free, no final é justo retribuir o esforço do guia que te deu a conhecer a cidade deixando-lhe uma gorjeta simpática.

Encantadoras praças da cidade muralhada de Cartagena das Índias

Orientados em Cartagena das Índias, largámos os mapas e os GPS e deixámo-nos ir. Neste centro histórico sentimo-nos seguros e confortáveis por isso fomos sem rumo surpreendendo-nos por ruas bonitas e praças ainda mais hermosas.

Ao atravessar por baixo a republicana Torre do Relógio damos logo com a Plaza de los Coches, outrora chamada de Plaza de los Esclavos, onde estes eram comercializados. O que por ali se vende hoje são casabes (pequenos pães crocantes de mandioca, com origem na época pré-colonial) e cocadas (uma espécie de bolachas à base de coco à qual podem ser adicionados sabores como caramelo ou gengibre). Estas últimas demasiado doces para o nosso bico!

Cocadas de várias cores em frascos
Ana a sorrir e a segurar uma cocada e um casabe em Cartagena das Índias

Seguimos até à Plaza de Bolivar e sentamo-nos um pouco à fresca a apreciar a mistura de turistas e de habitantes locais que inevitavelmente por aqui passam, sendo esta uma praça tão central da Cidade Muralhada. Ali ao lado está a Catedral, sóbria por dentro, colorida por fora, para não destoar.

Do outro lado, o Palácio da Inquisição, tema que despertou o nosso interesse e nos levou a visitar o museu que se encontra no seu interior. O MUHCA – Museo Histórico de Cartagena de Índias é uma autêntica enciclopédia acerca do passado desta cidade colombiana. A história é aqui contada de forma completa e atrativa. Foi assim que ficamos a entender o papel da inquisição em Cartagena das Índias, o seu passado colonial e o porquê de ser apelidada de A Heróica. Vale a pena a visita!

Rua com fachadas coloridas e plantas no passeio do Bairro de San Diego

Depois de passarmos pela Plaza de Santo Domingo, seguimos de limonada na mão até ao rústico Bairro de San Diego, mais sereno e encantador, principalmente ao final da tarde, com as esplanadas entre passeios e animadores de rua a dar música aos transeuntes. Derretemo-nos logo à entrada na Plaza Fernández de Madrid mas seguimos até à Plaza de San Diego, onde nos deixamos ficar.

Já em Getsemani recomendamos relaxar um pouco na Plaza del Pozo e uma visita à Plaza de la Trinidad depois do entardecer. Vê mais sobre este bairro no artigo Getsemani: Um bairro de força, irreverência e arte em Cartagena das Índias.

A praia de Bocagrande e o primeiro pôr do sol nas Caraíbas

Subimos o Baluarte de Santo Domingo e lá estava ele, o Café del Mar, de onde dizem que se vê o melhor pôr do sol em Cartagena das Índias. A esplanada é realmente aprazível… a fila para lá entrar e os preços do menu não tanto.

Vista para o Baluarte de Santo Domingo com o Café del Mar ao fundo

O sol já vai baixo, bem laranja, ao fundo. Pois simplifiquemos… “Una Club Colombia porfa” pedimos uma fresquinha a um vendedor ambulante que por ali faz o seu negócio. “Cinco mil pesitos, gracias”. Trepamos a muralha que em tempos originou a construção desta fortaleza, besuntamo-nos de repelente e lá nos sentamos a observá-lo: o que se estende até ao México, o que liga um sem número de ilhas, o dos paraísos, dos mistérios, dos tesouros e dos piratas.

Aí ficamos a guardá-lo na memória, na esperança que ela nunca nos falhe: o Mar das Caraíbas e o nosso primeiro pôr do sol na Colômbia.

Mar das Caraíbas e vista para Bocagrande em Cartagena das Índias ao por do sol

Percorremos a costa com o olhar e reparamos os edifícios a ficarem mais altos para a esquerda, para onde se estende a cidade nova, ou Bocagrande.

O epicentro comercial, o lugar dos grandes hotéis, do paredão com palmeiras, dos casinos e dos luxos. Certamente não tanto para o bolso dos comuns colombianos… nem para os nossos. Mas vamos lá dar uma vista de olhos, principalmente porque queremos pôr o pezinho na areia. Caminhamos uns 20 minutos desde a Cidade Muralhada e vemos Cartagena das Índias a mudar.

Quando chegamos à praia já o sol se punha e já a polícia mandava toda a gente embora. Como assim? Também perguntámos. É prática comum nas zonas balneares mais populares da Colômbia, fechar a praia após o por do sol. Polícias nas suas moto 4 

calcorreando o areal de um lado ao outro mandando os banhistas às suas vidas. Desta forma, molhámos só o pezinho e nos fomos também. De qualquer forma, com esta breve experiência, não nos pareceu o tipo de praia que procuramos (como acabou por se mostrar Palomino semanas mais tarde).

O bairro artístico de Getsemani, o nosso favorito

Saímos da Cidade Muralhada, atravessando por baixo a Torre do Relógio, o ponto de entrada original de Cartagena das Índias. Para fugir ao sol intenso que todo o ano se faz sentir por aqui, atravessamos para as sombras do Parque do Centenário. À fresca neste parque encontram-se algumas surpresas: umas preguiças pelas árvores, umas iguanas pelo chão e uns macaquitos por aí. Se estiveres bem atento não terás dificuldade em encontrá-los!

Mas adiante que o que nos espera encontra-se na outra ponta deste jardim. Ao sair damos de caras com o bairro de Getsemani, o predileto de Cartagena das Índias, na Colômbia.

Pessoas sentadas em cadeiras em rua decorada de Getsemani, o bairro de Cartagena das Índias

Nos quarteirões de edifícios baixos que se desdobram a partir daqui, estende-se um bairro onde a criatividade sai literalmente à rua. As paredes conseguem ser ainda mais coloridas e a acrescentar a esta paleta há os graffitis, a forma que muitos dos getsemanicenses encontraram para expressar as suas mensagens.

Foi em Getsemani que fizemos a nossa vida em Cartagena das Índias. Aqui nos alojámos, comemos e bebemos. Por aqui muito deambulámos sem rumo conhecendo novas ruelas ou repetindo as que já conhecêramos. Getsemani é um bairro de caráter muito próprio e certamente acolhedor… isto hoje, porque em tempos idos foi palco de repressão e dificuldade.

Muita história e vida conta esta zona de Cartagena das Índias por isso dedicamos-lhe um artigo único com a nossa experiência e as nossas dicas, assim como algumas curiosidades e história: Getsemani: Um bairro de força, irreverência e arte em Cartagena das Índias.

Grafitti de um rosto colorido numa parede de fundo amarelo em Getsemani

Em resumo, algumas dicas para visitar Cartagena das Índias, na Colômbia

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