Em caminhada pela ilha de Santo Antão, em novembro de 2024, disse-me um guia local que andava com dois turistas: “Numa próxima tens de combinar as ilhas de Santiago e Fogo” falando com entusiasmo dos vulcões, das paisagens lunares e da identidade forte destas ilhas. Assim se juntou mais uma promessa de aventura à lista, cumprida um ano e meio depois.
Motivada pelo meu fascínio por vulcões, esta segunda incursão ao arquipélago de Cabo Verde tornou-se óbvia, facilitada também pelos voos diretos desde Portugal. Aterrei em Santiago mas rapidamente voei para o Fogo, subi o grande gigante, cabeça de cartaz da ilha, fiz ranger os joelhos entre ladeiras até Mosteiros, encontrei um São Filipe estranhamente pacato, e foi por fim de regresso a Santiago que houve espaço para pausar e relaxar. Primeiro, esticar os músculos e render-me ao maciço vulcânico; por último, dar lugar ao ócio à beira-mar, entre praias e águas de coco frescas. Se te parece um bom plano, neste artigo encontras o roteiro que me levou entre as ilhas de Santiago e do Fogo em Cabo Verde e demais detalhes que te podem ajudar a planear esta aventura.
Não percas! Para te ajudar a planear esta viagem, espreita o artigo Guia e Dicas para Visitar Cabo Verde.
Dia 1: Chegada à capital de Cabo Verde
A chegada à cidade da Praia, capital de Cabo Verde desde 1770, fez-se pelo voo bissemanal da Easyjet desde o Porto, embora fique a nota de que os voos desta companhia low-cost saiam com mais frequência de Lisboa.
Rapidamente encontrei o jovem que segurava o sinal com o meu nome, pronto para me levar à guesthouse Kazarão di Mavete no Plateau ou, como quem diz, o centro histórico, coração da cidade da Praia. Deixada a mochila, embora já meio da tarde, ainda havia tempo e muita energia para explorar a cidade.
Estava a escassos minutos da Rua 5 de Julho, rua direita lá do sítio, onde dei logo com o Mercado Municipal, já quase a fechar, mas ainda com alguma vida e cor. Deliciei-me só de ver as frutas, coloridas e apetitosas! Saí com duas mangas num saco que não duraram muito, e continuei a vaguear pelo Plateau já de olho no restaurante para jantar. Passei diante do Museu Etnográfico da Praia e da Fundação Amílcar Cabral, de portas já encerradas, e terminei esta primeira parte na Praça Alexandre Albuquerque dominada pelo busto do respetivo governador e pela Igreja de Nossa Senhora da Graça.
Daí arranquei caminho, descendo o planalto que sustenta a zona alta da cidade em direção à beira-mar. São cerca de 40 minutos a pé até à Praia Quebra Canela, passando ainda pela Praínha. Espreitei só de cima para este pequeno areal que faz juz ao nome, encolhido entre os hotéis mais prestigiados da zona. Mais à frente, na Praia Quebra Canela, desci para pôr o pé na areia e aferir a temperatura da água. Já o sol se punha e por ali miúdos e graúdos jogavam à bola e davam mergulhos no mar. Fiquei a observar até regressar ao Plateau para a primeira cachupa desta viagem (o prato mais emblemático de Cabo Verde, à base de milho e feijão, lentamente estufado com vegetais, carne ou peixe e especiarias).
Dia 2: Da ilha de Santiago para o topo da ilha do Fogo
A manhã começou com um voo de apenas 25 minutos da CVsky entre Santiago e o Fogo, a bordo de um pequeno avião. À chegada a São Filipe, apanhei o transporte coletivo com os irmãos José e Marcus rumo ao topo da ilha. Mas antes de subir, ainda assisti à azáfama do porto com a chegada do ferry vindo da Praia: uma mistura de passageiros, mercadorias e a vida local a acontecer.
A subida de carrinha até Chã das Caldeiras é uma experiência em si: numa hora e vinte vai-se do nível do mar até aos 1700 metros de altitude por paisagens áridas e lunares. Nesse caminho, fomos parando para deixar encomendas de pão e queijo nas aldeias, até que a silhueta imponente do Vulcão do Fogo se revelou no horizonte. Parámos no marco do Parque Natural do Fogo para registar o momento e, perante aquela montanha cónica, questionei-me se seria realmente possível trepá-la.
Já instalada na Casa Helena, almocei com vista para a caldeira e dediquei a tarde a deambular devagar pela pequena e surreal aldeia de Chã das Caldeiras, a descansar e a mentalizar a exigente subida ao Pico do Fogo agendada para a manhã seguinte.
Dia 3: A subida ao ponto mais alto de Cabo Verde!
Madruga-se para o pequeno-almoço, às 5h, e inicia-se a subida ainda sob um céu incrivelmente estrelado, embora as nuvens teimassem em abraçar o Pico do Fogo lá em cina.
Aos poucos, o esforço foi-se intensificando com a inclinação a aumentar e a irregularidade do cascalho vulcânico a requerer toda a atenção. As pernas queimavam, mas o sol que aos poucos começou a iluminar a imensa caldeira e a dar luz à aldeia de Chã numa aurora alaranjada, transformou o cansaço em pura admiração.
Em cerca de 3 horas alcancei a cratera principal, a 2829 metros de altitude, com o vento forte a cortar o ar. Não se podia esperar outra coisa, afinal estava no ponto mais alto de Cabo Verde. O que não esperava era aquele manto de nuvens que me separava do Oceano e as histórias que, dali, o Eurico, guia deste pequeno grupo de visitantes, nos contou sobre a estrondosa erupção deste gigante onde assentávamos os pés, há apenas 12 anos.
Já a descida foi puro divertimento: é preciso dar leveza ao corpo e deixá-lo ir, a deslizar pelas vertentes da macia cinza vulcânica!
Antes das 12h já estava de regresso à base, de Koral na mão e perante o prato do dia da Casa Isabel, dando como concluída uma das experiências mais marcantes de Cabo Verde.
Atenção!
Não é recomendável subir sem guia. Fiz a caminhada com o Eurico, um guia local incrivelmente atencioso que conhece muito bem a montanha e a história das últimas décadas.
À tarde, o ritmo abrandou. Tentei encontrar locais para provar o famoso Vinho de Chã produzido de forma manual em solo vulcânico, e acabei a jantar novamente na Casa Isabel, único aberto, onde partilhei a mesa e conversas genuínas com a pequena Vanessa, uma menina local.
BREVEMENTE: Escrevi um guia completo sobre a subida ao Pico do Fogo, com os contactos do guia, o que levar na mochila, preços e todos os detalhes sobre esta aventura. Sairá em breve… fica atento!
Dia 4: Trilho de Chã das Caldeiras a Mosteiros (e passagem pelas Piscinas de Salinas)
Mais uma vez a alvorada em Chã das Caldeiras fez-se cedo. Às 7h, já com a mochila despachada no transporte coletivo rumo a São Filipe, comecei a caminhada para aproveitar o frescor da manhã. Despedi-me da aldeia e os primeiros 4 km revelaram-se planos e, para mim, impactantes por percorrerem a imensidão da cratera e um impressionante campo de lava negra. A memória viva da erupção de há 12 anos!
Ao chegar a Monte Velha, a paisagem muda radicalmente: o caminho plano dá lugar a uma descida técnica e bastante íngreme em terra e pedra, que exige muito dos joelhos e da resistência física. À medida que perdi altitude e trespassei as nuvens, surgiu a vegetação verdejante e as famosas plantações de café do Fogo. Findado o trilho, inicia-se a aldeia de Pai António, com vistas sobre as suas casas coloridas, encostas verdes e o mar ao fundo.
Para evitar o desgaste desnecessário de descer a pé até Mosteiros por estrada, tinha um táxi à minha espera em Pai António. No regresso a São Filipe pela costa, aproveitei para fazer uma paragem nas Piscinas Naturais de Salinas, um local cénico, embora atualmente com ar abandonado e sem condições para banhos.
Veredicto sobre este trilho...
Embora seja um trilho interessante para ver o contraste entre o cenário vulcânico e a vegetação, é bastante exigente e, pelo menos nesta altura do ano (junho), muito árido na maior parte do percurso. Se o tempo for limitado na ilha, não o considero imperdível (especialmente quando comparado com as caminhadas em Santo Antão).
Dia 5: Entre São Filipe e Praia
Embora seja a capital da ilha do Fogo, descobri neste dia que a cidade de São Filipe fica deserta ao sábado a partir da tarde e ao domingo. Explicou-nos a simpática cubana, dona do pequeno restaurante Agro Ebenezer: “As pessoas que durante a semana frequentam a cidade, ao fim de semana vão para as aldeias da ilha e a cidade fica vazia”.
Como só tinha voo ao final tarde, deambulei pelas ruas solitárias, passei diante do mercado municipal encerrado e da Igreja Nossa Senhora da Conceição impecavelmente pintada de azul e branco. Subi à Praça Cruz dos Passos, com a pizzaria como aparente ponto de encontro, e ainda à Praça de Santa Filomena a ver se algo acontecia por essas bandas.
Derrotada, decidi dar um passeio à beira-mar, pisando a areia negra e quente, mas nunca entrando na água! Avisaram-me várias pessoas com que me cruzei: “O mar é muito perigoso e traiçoeiro… não se atrevam nem a molhar os pés!”
O almoço foi na própria guesthouse onde fiquei, o Cruzeiro, polvo com vista-mar. À tarde, seria possível ir a pé do centro de São Filipe até ao Aeródromo, em apenas cerca de 30 minutos. Mas com o calor abrasador que se fazia sentir, preferi o táxi por apenas 500$.
Depois de mais 25 minutos de voo, aterrei novamente na Praia onde me esperava o Sr. Domingos para me levar ao alojamento no Plateau. A próxima etapa seria chegar ao extremo norte da ilha de Santiago, mas à noite já não havia transportes pelo que teve de ficar para a manhã seguinte, permitindo-me tempo para voltar a jantar e finalmente ouvir umas mornas na Rua Direita do Plateau.
Dia 6: Da Praia para o Tarrafal, em Santiago
Antes das 9h estava já no estacionamento em frente ao Museu Nacional da Praia para sair de coletivo em direção ao Tarrafal. Tive sorte pois sobraram dois lugares no próximo coletivo e segui logo viagem. Foram 2 horas de caminho à boa maneira cabo-verdiana, com inúmeras paragens para carregar e descarregar passageiros e encomendas.
À chegada à Praia e já depois de deixar a mochila no alojamento, dirigi-me à praia… finalmente! Almocei mesmo ali, num dos pequenos “restaurantes” com grelhados à porta.
A tarde foi dedicada a um momento muito especial: a estreia de Cabo Verde no Mundial de Futebol de 2026! Assisti a metade do jogo no ecrã montado em plena Praça do Tarrafal… mas a transmissão era tão fraca que na segunda parte mudei-me para o Restaurante Sol e Luna, para ver a partida terminar em empate contra a seleção espanhola. A festa foi garantida e o final da tarde foi passado a relaxar na praia do Tarrafal até o sol se pôr.
Dia 7: Momento histórico no Museu da Resistência do Tarrafal
Logo pela manhã, visitei o antigo Campo de Concentração na aldeia de Chão Bom no Tarrafal. Construído em 1936 pelo regime do Estado Novo português, o também conhecido como Campo da Morte Lenta, servia para encarcerar opositores políticos e antifascistas, acolhendo mais tarde também combatentes das lutas de libertação das antigas colónias africanas. O hoje transformado em Museu da Resistência trouxe-me o contexto de uma parte muito importante da História portuguesa. Foi uma visita impactante que preserva a memória das condições desumanas e das torturas praticadas na época.
A última tarde desta viagem pelas ilhas de Santiago e Fogo em Cabo Verde foi passada a relaxar entre a piscina da Residencial Santo Amaro e a praia do Tarrafal, recarregando baterias antes do regresso.
Dia 8: Do Tarrafal para a Cidade Velha e voos de regresso
Para voltar à Praia desde o Tarrafal não tive tanta sorte. Cheguei ao estacionamento do Mercado Municipal já depois das 9h e tive de esperar cerca de 1h30m para que o coletivo enchesse.
Depois das 2 horas de caminho de uma ponta à outra da ilha de Santiago, cheguei à Praia já ao final da manhã. Telefonei ao Sr. Domingos que me apanhou e me levou direta à Cidade Velha, o berço da nação cabo-verdiana a cerca de 15 km da Praia, que ainda me faltava visitar.
Esta povoação histórica classificada como Património Mundial pela UNESCO foi a primeira cidade fundada por europeus nos trópicos e um ponto central do comércio transatlântico de escravizados. Não tive tempo de subir ao Forte de São Filipe, mas passeei pela histórica Rua Banana, passei pelo Pelourinho, pela Sé Catedral e pelo Centro Cultural.
Antes de seguir para o Aeroporto da Praia, almocei a melhor refeição desta viagem: gambas, peixe-bica grelhado e uma mousse de camoca, quase em cima do mar, no Restaurante Kaza Antú. Que refeição deliciosa!
Esta segunda (e não última!) incursão ao país da Morabeza terminou com o voo de regresso da Easyjet ao início da tarde em direção ao Porto.
Onde ficar em Santiago e no Fogo
- Praia, Kazarão di Mavete – Ótima localização no Plateau, perfeito para explorar a capital a pé.
- Tarrafal, Residencial Santo Amaro – Hotel com uma pequena piscina e com bom pequeno-almoço, a 5 minutos da praia, adequada para relaxar no fim de um roteiro como este entre Santiago e Fogo, em Cabo Verde.
- Chã das Caldeiras, Casa Helena – Guesthouse com quartos construídos em pedra vulcânica, e com pequeno-almoço ajustável à hora das saídas para as atividades, o que é prático.
- São Filipe, Cruzeiro Guesthouse – O terraço, onde servem o pequeno-almoço, e alguns quartos têm vista ampla para o mar. Embora fique ao pé da praia, situa-se a cerca de 15 minutos a pé do centro de São Filipe.
Onde comer em Santiago e no Fogo
- Praia, Plateau: Kaza Katxupa e Restaurante Avis
- Praia, Cidade Velha: Kaza Antú
- Tarrafal: Balacobaco Artes Quentes
- Chã das Caldeiras: Casa Isabel
- São Filipe: Agro Ebenezer
Quanto custou esta viagem a Cabo Verde
Esta viagem de 8 dias ficou a cerca de 770€ por pessoa, sendo que éramos duas e algumas despesas são partilháveis como os alojamentos que custaram 160€ por pessoa (7 noites, com 6 pequenos-almoços).
O que ficou mais económico do que na minha última viagem a Cabo Verde foram os voos internacionais que, com antecedência e flexibilidade nas datas, consegui a 135€ por pessoa ida e volta desde o Porto, apenas com uma mochila pequena para colocar debaixo do assento que, para mim, é suficiente. Já os voos internos entre Santiago e Fogo foram praticamente o mesmo valor, tendo ficado em 138€ por pessoa. De ferry seria cerca de metade do preço, mas umas 4 ou 5 horas de mar para cada lado.
Em deslocações de coletivos e táxis gastei cerca de 80€. As refeições e outros gastos em comida ficaram por 160€ e as atividades e entradas custaram 22€ por pessoa.
O visto de entrada em Cabo-Verde tem o um custo fixo aproximado de 30€. Entre o Cartão SIM e as despesas de levantamento gastei cerca de 12€ e o Seguro de Viagem IATI custou 32€ (aproveita os 5% de desconto nos teus seguros viagens com este link).
Consulta o artigo Guia e Dicas para visitar Cabo Verde, para mais detalhes sobre custos e logística de viagem.
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